Hoje admito que sentirei saudade

Eu - Bike (31.03.2007)

Essa parceria é incrível. E pode parecer besteira, mas hoje confesso que deixará muita saudade.

Lembro-me bem da sua chegada. Saiu toda apertada, se ajeitando de dentro do veículo que era pequeno pro seu tamanho. Não entendi bem, um misto de surpresa e alegria. Até porque você era menina dos olhos de muitos meninos da minha idade. Que louco haveria de não querê-la? Da sua parte, me pareceu recíproco: se arrumou, ficou de pé, toda formosa, como quem aguarda ansiosa nossa primeira volta juntos.

E lá fomos nós. Uma volta de poucos minutos, coisa de esquina mesmo. Mas bastou essa primeira volta para a sintonia se confirmar e desde aqueles poucos metros que não paramos mais. Andamos por entre cidades e em meio à natureza, por vias asfaltadas e terrenos acidentados. Corremos por becos e saltamos escadas. Subimos, suando por ladeiras, juntos. E também descemos juntos, sentindo o sabor de viver personificado em ventos que nos despenteavam. Às vezes nos dividíamos no meio da descida de forma violenta e nos quebrávamos todo, é bem verdade. Mas eu sempre voltava correndo para te buscar e ver como você estava. Não podia perder você.

E o que pra mim mais parecia uma relação como outra qualquer, das muitas que tive, foi se transformando, por mais que eu não enxergasse. Você se animou desde o primeiro dia e curtia todos os nossos passeios. Tristeza era ficar em casa por qualquer motivo ou em dias chuvosos.

Usava sempre a mesma roupa para sair comigo, mas eu nem me importava. Aliás, confesso que esse sempre foi um dos seus vários charmes. Sempre admirei esse seu desleixo com a estética. Lembro que somente passado muitos anos você resolveu banir de vez os poucos penduricalhos que usava, mantendo somente o que era você de verdade: o amarelo vistoso e o preto imponente.

Você também sempre foi mais pontual que eu e lembro-me das diversas vezes em que me ajudou a chegar a tempo em um compromisso. Sua companhia também facilitava os dias em que não estava muito animado para andar até o colégio e, posteriormente, até a faculdade.

Sim, fomos juntos para a Universidade. Você lembra? Como eram intensas as manhãs. Sua companhia sob o sol recém-nascido e a beleza do caminho que percorríamos me fazia esquecer o sono diariamente. Ao voltar pra casa, o esforço da subida, dividíamos lado-a-lado – um incentivando o outro.

Foram bons tempos…

Infelizmente interrompidos quando me mudei para a cidade. Esse foi sem dúvidas nosso período mais distante. Você ficava mais em casa, enquanto eu saía para trabalhar e estudar cedo, voltando apenas tarde da noite, e sem tempo para você. No caminho, olhava pela janela do ônibus lotado desejando você. Foi um período difícil e eu sempre estudava formas de te levar comigo.

bike2 saudade

Veio um novo emprego, uma vida nova e consegui incluir você de novo nos meus dias. Que felicidade! Falava a todos os amigos e aos sete ventos da felicidade que era ter você caminhando e correndo comigo diariamente de novo. As coisas voltaram a ser boas, divertidas e mais leves. Ainda na cidade, mas agora com você ao meu lado, nossos laços se fortaleceram ainda mais. Diferente dos coletivos, fazíamos o caminho que quiséssemos. A atenção com os que dividiam nosso caminho era sempre redobrada e, às vezes, motivo de estresses. Esses eram temporários, e em questão de minutos éramos somente eu e você de novo. E tudo ficava azul, sublime e tranquilo.

A essa altura já cogitava aceitar que nossa relação era mesmo forte e seria duradoura. Afinal, já eram quase uma década de união. Lembro bem do vazio que senti no peito quando te larguei por uma noite, sozinha, em um canto da cidade e não a avistei no dia seguinte, quando cheguei. Minha cabeça rodou. (Logo eu que me considero tão desapegado?).

Mas quando me aproximei um pouco mais lá estava você, inconfundível como sempre. Depois daquele dia aumentei ainda mais meus cuidados e nunca mais deixei você pernoitar sozinha.

Este episódio recente e toda essa história de viajar por aí sem destino me fizeram pensar diariamente se levava ou deixava você. Optei por deixar. Mas não entregá-la a outro. Quero passear e sentir o vento na nuca ao seu lado outra vez quando voltar. Digo, outras vezes.

Mas tenha certeza, que de onde estiver lembrarei os nossos momentos juntos com carinho semelhante ao que farei pensando em familiares e amigos.

Vou por aí, sem destino, sem tempo, sem preocupação, mas volto. E em breve estaremos novamente juntos, eu e você, queimando o asfalto e costurando trânsitos, faça chuva ou faça sol; bebendo uma água de coco na orla de uma praia paradisíaca; ou descendo morros em alta velocidade só pra me sentir mais vivo. Hoje admito que sentirei saudade

Uma carta de carinho (com toque de humor, claro) a um dos poucos bens materiais dos quais não me desfiz: minha bicicleta. Batizada de Trovão Amarelo e com inúmeros quilômetros rodados ao meu lado.

bike saudade

Já com saudade de você


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