Umas cervejas e um lindo nascer do sol

beer-438463_640

Samba na Pedra do Sal; Forró na Lapa; Sol nascendo em Santa Tereza. Vem comigo!

Recentemente, saí para tomar uma cerveja gelada em uma sexta-feira despretensiosa de setembro com um velho amigo. Fomos curtir o famoso (e bom) samba da Pedra do Sal. Bebemos umas cervejas, curtimos o samba, e de lá rumamos para a Lapa, o centro da boemia carioca. No caminho sugeri que víssemos o sol nascer em Santa Tereza, bairro vizinho à Lapa que fica em uma grande ladeira. Ele riu e não entendeu, na verdade nem eu. Mas sei lá, só me deu uma vontade natural, como algo infantil, e resolvi me perguntar, por que não?

Chegamos à Lapa e fomos a uma casa de forró quase profissional, voltada mesmo para dançarinos, o Democráticos. Um clube objetivo, voltado para a dança e com bons dançarinos. Ainda rolou show ao vivo em um ambiente amplo e agradável.

Até aí tudo ia bem e normal. A ideia do nascer do sol continuava firme na cabeça, o teor alcóolico subia e pro meu amigo a desistência era questão de mais algumas cervejas.

Engano dele.

Saímos do clube lá pras tantas da madrugada e fomos para outro bar. Lá não demorou até ficar desinteressante e vendo o sol ficar arroxeado percebi que estava na hora da missão. Convidei o amigo mais uma última vez, não senti firmeza, e então resolvi partir solitário.

Peguei a ladeira na minha reta e me pus disposto a enfrentar aquelas centenas de metros até achar um bom mirante para contemplar o sol nascente. Estava bêbado e de calça jeans, o que dificultava o caminho. Mas a força de vontade era superior e era ela a responsável por me botar lá em cima, rodeado de ar fresco e ao som de passarinhos, não de pessoas.

 

“Eu vou pra Gamboa e de lá vou pra Lapa, aí o bom senso me escapa, amor, eu não sei como evitar. Eu subo a colina e pra minha surpresa, alguém diz em Santa Tereza, que o dia já vai clarear…”

 

Subi pela mesma rua utilizada por carros e não sabendo nada do caminho escolhia sempre os que levavam mais alto quando me deparava com bifurcações. Depois de um bom tempo andando, as ruas já não possuíam nenhum vestígio de outros transeuntes. Carro nem pensar. Os passarinhos iam aparecendo e cantavam alto, uns se metendo nas melodias dos outros, mas por incrível que pareça formando um uníssono de dar gosto. Quem precisa de iPod ouvindo isso?

Junto com eles a luz do dia ia se mostrando cada vez mais rápida e clara. Eu ficava preocupado, pois as pernas se esforçavam para me convencer a desistir, o suor ia aparecendo na testa, evaporando o álcool outrora ingerido de forma exagerada e as pálpebras pesavam.

Andei mais umas dezenas de casas até que vi o antigo bondinho de Santa Tereza. O bondinho abandonado que há pouco tempo ainda encantava cariocas e turistas costurando as ruas tranquilas do bairro. Uma pena o desleixo do governo com aquele simpático veículo histórico. Passei por ele e logo cheguei a mais uma bifurcação, de onde escolhia entre seguir adiante ou um mirante de nome Mirante Molhado. Mesmo sendo carioca não o conhecia e fiquei feliz de saber que havia mesmo um mirante, que não havia andado tanto em vão. O mais engraçado é que além de não saber se haveria um bom lugar para contemplar a paisagem, nem ao menos desconfiava se o sol nascia para o lado que eu ia terminar a jornada. Fui mesmo à sorte e confiei que daria certo.

Entrei na pracinha minúscula do mirante. Estava sozinho, cercado apenas por passarinhos e árvores. As casas tão silenciosas nem me lembravam de que estava em uma área urbanizada. O dia já estava bem claro e nada de sol. Comecei a aceitar que o sol não nasceria ali, mas mesmo assim já havia valido, pelo clima bucólico, pela vitória de ter chegado onde queria, os pensamentos solitários e principalmente a sensação de estar vivo.

Fui até uma árvore grande e me instalei em sua copa, de frente para o mirante. Encostei a cabeça e relaxei, admirando a beleza do Rio de Janeiro. Refleti sobre essa beleza ser algo que não se precifica, não se taxa, nem se cobram impostos e sorri satisfeito. Quando eu menos esperava e já meio sonolento de tão relaxado, vi uma pontinha vermelha bem ao longe. Quase cai da árvore, tal qual desenho animado. Tudo se fez perfeito, o sol nascia ali mesmo.

Corri pro banquinho do mirante e admirei. Tentei tirar uma foto do celular já que não fui com nada, mas o celular descarregado só me possibilitou uma fotografia das árvores antes do sol dar as caras. Apenas uma que registraria aquele dia, mas não o momento mágico do ápice. Mas tudo bem, registrei pela retina. Fotografei como antigamente, por meus próprios olhos e a memória foi meu cartão SD. Hoje em dia muitos deixam de curtir a beleza, diversão e local que estão por perderem tempo segurando suas câmeras ao invés de viver o momento. Não sofreria desse mal, não ali.

A bolinha vermelha foi crescendo e subindo, tudo muito rápido, mais do que eu gostaria, mas eu não ousaria criticar aquela beleza simples, impagável. Perguntei-me por que cargas d’água não fazia isso todos os dias. E me lembrei do quanto somos escravos da correria do nosso cotidiano. Desejei estar logo na estrada, viajando sem destino e sendo senhor do meu tempo.

Enquanto mergulhava em pensamentos o sol ia ficando alaranjado, indescritível, e já era uma bola enorme no céu. Fantástico, tão fantástico que nem parecia tão simples, diário. Se me dissessem que era um fenômeno que ocorria a cada vinte anos acreditaria. Estava vivo de novo e isso era o máximo.

Com sorriso nos lábios deitei no banco e acabei cochilando por uns vinte minutos. Levantei apenas com a chegada de um desconhecido, um jovem que passava pelo local e achou mais seguro me acordar. Agradeci a gentileza e me levantei para ir embora. Não queria repetir o caminho da volta, então tomei o outro lado da ladeira. Andando passei por casas humildes e o que parecia uma comunidade. Em suas ruas dei e recebi bom dia de todos que cruzaram meu caminho, como nos tempos da infância em Maricá.

Coincidência ou não, cheguei a passar por uma Kombi com placa de Maricá, que me remeteu ainda a mais nostalgia. Desci até a Rua do Catete por locais que nem conhecia. Parei em uma padaria para matar a fome com pãezinhos doces que somavam doze. Dividi, comendo seis e deixando seis ao lado de um rapaz de rua que dormia em um banco de praça. Não fiquei para esperá-lo acordar, mas acredito que deva ter gostado da surpresa para o café da manhã. Dali segui meu caminho e essas cervejas em uma noite despretensiosa com o olhar curioso do meu amigo culminando em um nascer do sol surpresa me fizeram pensar que este mês já valeu o que vivi. Simples e de graça.

 

Foto: Pixabay


« | »

Sobre