Viagem de bicicleta: O cara que saiu de São Paulo para o México em um mochilão de bicicleta

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Bike America: de São Paulo ao México em uma viagem de bicicleta

Conheça o paulista que pediu demissão para fazer uma viagem de bicicleta pela América do Sul

 

Você já quis viajar pelo mundo em uma viagem de bicicleta? Será que é possível?

Sair para viajar ou mochilar por meses pode significar muito dinheiro sendo gasto com transportes e passagens, nós sabemos. Uma opção é ir de carona, mas essa pode não dar a liberdade que o viajante deseja, certo? Pois é! Mas e fazer uma viagem de bicicleta, será que é possível?

Se você já pensou em viajar pelo mundo de bicicleta, saiba que é possível! Conheça a cicloviagem do Rodrigo Cisman, mochileiro que largou tudo, pegou seu mochilão e sua bicicleta e saiu sem muito rumo, pedalando de São Paulo em direção ao México e criando o Projeto Bike America.

O Instinto Viajante conversou com o Rodrigo e hoje mostra o que esse mochileiro aventureiro tem a dizer sobre sua viagem de bicicleta pela América do Sul. Confira a seguir!

 

Oi Rodrigo, tudo bem? Conte-nos um pouco sobre si mesmo e o Projeto Bike America.

Salve Bernardo. Tudo ótimo por aqui. Eu sou o Rodrigo Cisman, paulista, nasci em São Bernardo do Campo, mas cresci no interior do Estado, em Socorro. Tenho 31 anos, morei os últimos 12 na capital, São Paulo, onde me formei em Publicidade e Propaganda e trabalhei como redator.

Criei o Projeto Bike America saindo de São Paulo para fazer uma viagem de bicicleta pela América Latina. A ideia é chegar ao México, conhecendo todos os países até lá, exceto Uruguai, Argentina, Chile e Bolívia, por onde fiz um mochilão em 2012. E o Paraguai fica pra depois. O objetivo real não é chegar ao México, mas sim a viagem em si, aquela coisa bem clichê de que o importante é o caminho, não o destino. É batido, mas é real.

Durante a viagem de bicicleta, vou escrevendo, fotografando e mergulhando. Quero ter um conteúdo legal pra lançar alguns livros depois, e conseguir trabalhar com tudo isso junto.

Bem legal! E o que motivou ou inspirou você a realizar essa viagem de bicicleta?

Sempre gostei de viajar. Pegar a estrada é uma alegria imensa. Quando fiz o mochilão em 2012, conheci um cara que tinha acabado de chegar em Ushuaia (Argentina) no extremo sul do continente americano, em uma viagem de bicicleta. Ele saiu do extremo norte, no Alasca. Como já estava pensando como conseguiria viajar mais, a ideia de ir de bike caiu como uma luva. Voltei da viagem e trabalhei em São Paulo já com isso em mente. Enquanto juntava um pouco de dinheiro, fui planejando, pesquisando, conversando com quem já havia feito algo parecido, fazendo alguns cursos. Em setembro de 2014, a viagem começou.

Porque viajar de bicicleta? Você era atleta antes?

A bicicleta é um meio de transporte ideal pro o tipo de viagem que queria. Não gasta com passagem ou combustível, é relativamente rápida e encara vários tipos de terreno. Traz uma proximidade muito grande com o que está em volta, sem ter portas, vidro ou teto me separando da paisagem ou das pessoas. E ela é simpática, muita gente se identifica com a bike.

Posso dizer que me considerava atleta quando morava no interior. Era o dia inteiro andando de bike, na piscina, jogando bola, fiz um pouco de arte marcial. Em São Paulo, deixei de fazer tudo. Era só estudo, trabalho e happy hour. Não fiz nenhuma preparação física antes da viagem de bicicleta. Acabei de montar a bagagem toda na bike na noite antes de partir. Dormi, acordei e saí pedalando. Não é uma competição, não existe pressa nem recorde pra ser batido. O condicionamento vem com o tempo.

Sua bicicleta é comum ou profissional? Muito cara?

É uma bike comum. Uma mountain bike de alumínio. Tenho ela desde 2007, na época paguei R$ 1.200,00. Troquei algumas peças como corrente, catraca, cassete, porque já estavam gastos demais. Na estrada conheci gente em viagem de bicicleta com Caloi Ceci sem marcha nem nada. Tem gente que viaja com bike fixa, com cachorro ou gato. Pra mim, bike cara é pra competição.

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Tribo Pataxó, em Barra Velha / Bahia, Brasil

Recebe algum apoio ou patrocinio?

Eu consegui alguns apoios legais de equipamentos de camping. Ganhei barraca, fogareiro e panelas da Azteq, squeeze da Camel Bak, pneus da Levorin, rede e mosquiteiro da Kampa, óculos de sol da Notiluca, saco-estanque da Sea to Summit, tênis da Snake, alforges com desconto da Arara Una. E durante o caminho, muita gente ajuda. Já me deram dinheiro, pagaram café ou comida. Em Linhares, por exemplo, uma bicicletaria chamada One Bike revisou a bike inteira, trocou corrente, cabos, conduítes. Fora o apoio moral da família, dos amigos e da galera que cruza pelo caminho. Em Mucuri, na Bahia, tive um apoio incrível do pessoal da Rádio Abrolhos, agilizaram uma pousada incrível pra eu ficar, restaurantes pra jantar. Coisa linda!

Quais lugares ou continentes você já visitou e qual é o roteiro da viagem de bicicleta, caso exista?

Só conheci Uruguai, Argentina, Chile e Bolívia no mochilão que fiz em 2012.

O roteiro é subir pelo litoral do Brasil até Belém, cruzar de barco pra Manaus e depois Peru. Ir pra costa do Pacífico e subir até o México.

Por quanto tempo pretende viajar?

Antes da viagem de bicicleta começar, eu calculava 3 anos. Mês que vem, em setembro, vai fazer 1 ano que saí, e “ainda” estou na Bahia. Calculo mais três anos a partir daqui.

O que seus amigos e familiares acham desse estilo de vida?

No começo todo mundo acha que é loucura, só um surto. Mas quando viram que era real, me apoiaram totalmente. Eles acham legal o estilo de vida, ficam felizes por eu poder ter essa experiência, embora exista a preocupação, claro. Seria estranho se não se preocupassem. rs

Você usa dinheiro na viagem? Pouco, muito, como é?

Uso um pouco, sim, seja pra comer, pagar alguma passagem de barco, algumas hospedagens quando o corpo sente falta de dormir em um colchão. A ideia é gastar o menos possível, a meta é R$ 15,00 por dia. E está nos planos trabalhar no percurso. Em Ilhabela, São Paulo, trabalhei 3 meses na Bela Azul, uma operadora de mergulho. Quando estava em Angra dos Reis, Rio de Janeiro, rolou um freela como redator em São Paulo por duas semanas. Como ainda estava perto, deixei a bike na casa em que estava e corri de ônibus, trabalhei e voltei.

Você acha que a quantidade de grana influencia no quanto pode se curtir durante a viagem e fazer com que seja boa? Você acha que pode representar algum problema ou limitação para viajar ou ser nômade?

O dinheiro sempre é uma limitação dependendo de como você quer levar a vida, seja em casa ou viajando. Você, Bernardo, mais que ninguém sabe que é perfeitamente possível viajar sem gastar nada. Pra isso tem que estar disposto a abrir mão de algumas coisas, o que não significa que seja um problema. O que não pode é usar a falta de dinheiro pra não começar uma viagem. Agora, se a ideia é sempre comer em restaurantes, dormir em hotéis, fazer passeios turísticos, aí não tem jeito. Porém, existe uma mágica pra ganhar dinheiro quando quer gastar com algo: arranjar um bico.

Como você se mantém, come e dorme durante a viagem?

Eu levo comida na bike. Frutas, arroz, macarrão, legumes, amendoim, rapadura. De preferência coisas que não estragam fácil e podem ser usadas de muitas formas. Cenoura é um exemplo. Pode comer crua, jogar no arroz, no macarrão, na carne, e dura que é uma beleza. Também levo três potinhos com sal, orégano, curry ou outros temperos, pra dar um brilho no rango. Às vezes paro pra cozinhar na estrada durante a pedalada. Às vezes como só coisas rápidas, banana, maçã, laranja, chocolate. Às vezes como um PF (prato feito) no meio da estrada.

Pra dormir, tenho usado muito o site CouchSurfing. Só alegria até agora. Além de não precisar pagar, é legal porque você conhece realmente o lugar onde está, que só os nativos conhecem. Mas também acampo ou durmo na rede, algumas vezes em campings, outras na praia, no quintal de alguém. Sei que dá pra dormir nos Bombeiros ou Igrejas, mas ainda não usei nenhum dos dois.

Você é mais feliz com seu atual estilo de vida, sente saudades de antes ou acha que ainda falta algo? O que pensa sobre tudo isso?

Com relação ao estilo de vida, sou muito mais feliz, não tem nem comparação. Sinto saudades da família, dos amigos. Em alguns momentos sinto falta de ter meu canto, meu quarto, minha cama. Tem hora que cansa ter que arrumar e desarrumar a bike todo dia. Chegar em algum lugar depois de alguma pedalada, armar a barraca, fazer comida, lavar tudo, dormir, acordar, demorar uma ou duas horas pra guardar tudo e ter que pedalar mais não é tão fácil quanto parece. Mas compensa por muitos outros motivos, e isso acaba nem pesando muito.

E quando algo não sai como gostaria na estrada, o que você pensa e como age a respeito?

Isso depende muito do estado de ânimo na situação. Não muda muito da vida normal. É normal ter alguns momentos mais baixo-astral na viagem. Se acontece alguma coisa ruim nesse tempo, a reação é ficar bravo, xingar, reclamar. Isso acontecia mais no começo da viagem. Como isso não resolve nada, logo passa e aí o negócio é acalmar e tentar achar algum lado bom. Sempre tem. E com o tempo, fica mais fácil evitar a maioria das coisas que podem fugir do controle.

Já teve algum momento marcante na viagem? Qual foi?

Pô, vários. Quando saí de casa, olhei pra trás e vi minha família acenando. Quando estava descendo pro litoral e vi o mar da estrada. Quando consegui trampar com mergulho em Ilhabela. Quando parei para pedir água pros índios Pataxós e acabei ficando dois dias com eles. Quando vi o brilho nos olhos do alunos das escolas onde parei pra falar da viagem e do fundo do mar. O legal é que numa viagem dessas, tudo é muito marcante, muito intenso. Não existe nada que seja meio-termo. Tem muito lugar lindo, muita gente interessante e situações incríveis que marcam a gente a todo momento. Não tem nem como explicar, só estando lá e sentindo pra saber como é.

Um monte de gente acha que viajar é perigoso. O que você acha disso e o que diria a estas pessoas?

Viver é perigoso. Eu me sinto mais seguro viajando do que quando vivia em São Paulo. Assistir muita televisão, principalmente aqueles programas sensacionalistas, dá a sensação de que o mundo lá fora é uma guerra. Não é. Claro que tem gente ruim por aí. Mas as pessoas boas são a grande maioria.

Você sente medo de algo durante a viagem?

Sinto, claro. O maior medo é pedalar em estradas movimentadas. O medo da violência também existe, embora tenha sido muito tranquilo até agora. Sentir medo é bom, nos mantém alertas. Se não me engano, foi Gandhi que disse que “o medo é útil, a covardia não”.

E os medos que haviam antes de partir, quais eram? Eles permanecem?

Sempre tive medo de perder algum parente, amigo, a namorada. Esses medos permanecem, e não tem como te controle nenhum sobre a situação. Ficar longe de quem a gente gosta é a parte mais difícil da viagem.

Um grande medo que eu sempre tive, é o de ficar velho, olhar pra trás e ver que deixei de ter uma vida empolgante, eufórica. O que traz outro medo, o arrependimento de fazer a escolha errada, embora esse esteja presente em toda decisão que precisa ser tomada. Esses medos são mais fortes que o medo da violência e dos tão falados perigos na estrada.

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Qual foi a coisa mais importante que você aprendeu nas viagens até agora?

Eu era muito ansioso e preocupado com o futuro. Aprendi a deixar as coisas fluírem mais naturalmente, sem pressão, e aproveitar o que tiver de bom pra ser aproveitado. Não é aquela coisa chata, estilo Pollyana de ser, mas a preocupação em si não resolve nada. Se algo pode ser feito pra resolver algum problema, aí vale a pena se preocupar. Se nada pode ser feito, a preocupação, além de não resolver, só traz angústia, tristeza, desânimo.

De palpável, aprendi a subir em coqueiro e abrir coco, a coletar e comer ouriço-do-mar cru ou na fogueira, a fazer nó de marinheiro, a fazer bolo de banana, uva-passa e aveia, a fazer arroz sem óleo.

Que conselho você daria para as pessoas que procuram fazer algo semelhante?

Tenha certeza do que quer. Planeje, pesquise e converse bastante antes de começar. Entenda que uma escolha dessa vai trazer muita coisa boa no futuro, mas o durante pode não ser tão fácil assim. Como um amigo sempre dizia, cada escolha, uma renúncia. Você vai passar por situações que nunca imaginou, e vai crescer muito com isso. Vai sentir muita solidão, tão forte que dói o corpo inteiro, vai estar escuro, chovendo, e não vai ter sinal de celular nem internet pra falar com algum amigo ou parente. Sua namorada vai te largar, só vai faltar você no aniversário ou churrasco da galera. Cada vez que você fala com seus pais, irmãos e amigos dá uma vontade de chutar tudo e ir correndo pra vê-los. Você vai passar frio. Vai ter que tomar banho gelado no frio. Vai ser visto como louco, vagabundo e inconsequente por muita gente. E vai acreditar nisso muitas vezes, nas várias crises de existência que vão te atacar quando você mais precisa manter a mente sã. Em contrapartida, é lindo, é libertador, é um aprendizado espetacular, é o que há. Assim você vai perceber que comer arroz com batata na beira da estrada é uma delícia. Que mesmo estando longe, o pensamento e as lembranças de quem você quer bem te faz rir sozinho no meio do nada. Que pedalar por 8 horas embaixo de um sol escaldante é uma delícia depois de dormir com a roupa úmida.

Deixe de lado a ideia de fazer mais que alguém, de competir, de ser o maioral. Faça do seu jeito, no seu tempo.

Sempre existe a possibilidade de voltar a qualquer momento, seja definitivamente ou só um bate-e-volta. Mas enquanto você continuar seguindo em frente, mesmo com todos os perrengues, saudades e incertezas, é porque ainda está valendo a pena. E como vale!

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E aí, deu vontade de conhecer o mundão de bike? Cai no mundo!

Você pode saber mais sobre o Rodrigo Cisman nos sites Projeto Bike America e em sua página de fotografias de viagem. Você também pode seguir seu dia-a-dia no Facebook do Bike America.

 

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