Um mochileiro em uma Eurotrip que virou livro

Mochileiro Aprendiz Aventureiro: um mochilão pela Europa que virou livro

Conheça Vicente Zancan e seus aprendizados como mochileiro

Fazer um mochilão pela Europa em uma verdadeira Eurotrip dos sonhos é o desejo de muitos jovens brasileiros. Hoje o canal de entrevistas do Instinto Viajante conversa com um brasileiro que saiu de uma pequena cidade do Rio Grande do Sul para realizar esse sonho.

mochileiro aprendiz aventureiro eurotripConheça Vicente Zancan Frantz, autor do livro Mochileiro Aprendiz Aventureiro, que fala sobre sua viagem pela Europa aos vinte anos, quando mochilou por mais de 15 países durante quase dois anos, e seus aprendizados.

Olá, Vicente! Conte-nos um pouco sobre si mesmo e sua viagem.

Vicente: Oi! Sou natural de Ijuí, no Rio Grande do Sul, uma cidade com aproximadamente 90 mil pessoas. Sempre pensei em viajar pra conhecer outros lugares do Brasil e do exterior. Achava que isso me permitiria conhecer melhor a vida e o mundo, tocando extremos e encontrando mais equilíbrio. Foi o que fiz: aos 20 anos de idade, interrompi o curso de Direito na universidade em que estudava e viajei com uma mochila nas costas, sem prazo pra voltar. Minha experiência durou cerca de dois anos, passando por lugares da Europa e da América Central.

Porque decidiu fazer um mochilão?

Vicente: Escolhi mochilar pela riqueza da experiência de trabalhar, estudar e viajar em outros países, tudo de uma forma simples e improvisada de acordo com cada situação vivida. Escolhi ficar mais tempo em Londres, na Inglaterra, para poder estudar inglês, ter mais oportunidades de trabalho, receber em libra, que é uma moeda bem forte, e conhecer dezenas de culturas, além de estar bem perto de vários outros países para os quais eu pretendia viajar.

Qual era o objetivo da viagem?

Vicente: Realizar uma experiência rica de vida.

O que inspirou você a realizar essa viagem?

Vicente: Eu nasci com essa motivação. Meus pais também já viajaram bastante e acredito que tenho isso no sangue. Minha maior inspiração talvez tenha sido a ideia de que o mundo é nosso e que pra qualificar a nossa existência temos o poder/dever de conhecê-lo.

Quanto tempo ficou viajando e qual foi o ano?

Vicente: A experiência contada em meu livro Mochileiro Aprendiz Aventureiro durou aproximadamente 2 anos, de 2003 a 2005.

O que seus amigos e familiares acharam da viagem?

Vicente: Uns ficaram preocupados pela forma de viagem, pois achavam insegura. Outros ficaram curiosos. E outros, ainda, ficaram felizes por eu estar realizando um grande sonho.

Você acha que é difícil ou qualquer um seria capaz de ser mochileiro ou nômade?

Vicente: Basta esse espírito. Quem o tiver vai conseguir.

Você usou dinheiro na viagem? Pouco, muito, como foi?

Vicente: Eu acho muito difícil viajar durante meses ou anos sem absolutamente dinheiro algum. Pois o gasto normalmente existirá, nem que de modo indireto, com alguém pagando contas de quem viaja. Eu peguei dinheiro emprestado (que depois devolvi com trabalho feito no exterior), bem como paguei despesas com dinheiro que ganhei tocando saxofone nas ruas, trabalhando de garçom, atendente de hotel e fazendo outros bicos. Além disso, meus pais sempre me apoiaram bastante, inclusive nesse aspecto financeiro. Meu gasto com moradia, transporte, estudo, alimentação e lazer foi de aproximadamente 600 libras por mês.

Muitas pessoas querem saber se é possível viajar “totalmente sem dinheiro”. No meu ponto de vista, toda viagem naturalmente possui despesas. O que ocorre é que essas despesas podem ser pagas com trabalho durante a viagem ou podem ser custeadas por terceiros solidários, que dão carona, estadia, alimentação etc. Além disso, em alguns lugares se consegue boa remuneração por trabalho a ponto de o viajante pagar as despesas dele e ainda voltar pra casa com dinheiro. Assim, não acho que seja viajar exatamente “sem” grana, mas sim possível sair de casa sem dinheiro, ganhá-lo no caminho e imediatamente – simbolicamente – trocá-lo por algumas coisas, sem manipular o dinheiro. Noutras palavras, é possível sair de casa sem dinheiro no bolso, mas isso exigirá algum esforço e sorte do viajante.

Como você administrou esse dinheiro na estrada?

Vicente: Eu tinha um cartão de crédito internacional, mas usei quase sempre o dinheiro que recebia e tinha no bolso.

Quais ferramentas utilizou e utiliza para se planejar?

Vicente: Para viajar, abro mapas, leio e pesquiso o máximo possível sobre os lugares, ouço quem conhece algo a respeito, avalio datas mais convenientes, procuro vídeos, filmes, livros, passagens baratas, tento chegar aos locais já os conhecendo em teoria e com um roteiro elaborado – que geralmente altero de acordo com as coisas diversas que surgem.

O que você diria sobre choques culturais e como lidar com isso?

Vicente: São positivos. Abrem a nossa mente. A título de experiência, vale bastante a pena estar disposto a experimentar o diferente, a fim de encontrar o nosso próprio equilíbrio. É uma oportunidade de viver de forma intensa. Como ensina Einstein: “A mente aberta a uma nova ideia jamais volta ao seu formato original”.

Um monte de pessoas acha que viajar sozinho é perigoso. O que você pensa sobre isso e o que diria a essas pessoas?

Vicente: Viajar sozinho não é perigoso. Alguns lugares são perigosos, mesmo quando viajamos em grupo. A questão é cada um se conhecer pra conseguir identificar o que, diante das peculiaridades de cada local, pode fazer sozinho ou não.

Qual foi seu estilo de viagem? Se hospedou em albergues, camping, hotéis?

Vicente: Fiquei em albergues e casas de amigos.

Lembro de ter percebido uma mudança muito grande entre o início do livro, quando você havia acabado de ir e o fim, depois de estar mais experiente. Como você avalia isso, acha que algo mudou realmente?

Vicente: Uma experiência de vida intensa dessas muda bastante qualquer pessoa. Sempre pra melhor. O livro, além de informar e divertir os leitores, mostrando de forma geral como são essas experiências que milhões de pessoas fazem pelo mundo, acaba demonstrando sim justamente esse ponto por ti percebido: a metamorfose que acontece com o viajante.

E os medos que haviam antes de partir, quais eram? Eles permaneceram?

Vicente: Antes de viajar, eu sentia “medo” de não poder realizar de verdade o sonho de viajar desse jeito. Durante a viagem senti “medo” de que vivências maravilhosas como aquela não fossem se repetir na minha vida. Fiz algumas coisas que poderiam ser consideradas “loucuras” por algumas pessoas, mas nada que me causasse um temor emocional forte a ponto de me fazer desistir do que no momento desejava. Hoje sigo com “medo” de não conseguir conhecer ainda mais sobre a vida, o mundo, os outros e a mim próprio. Acho que em nossas vidas, com o passar do tempo e com vivências diversas, nossos medos são naturalmente substituídos.

Qual foi a coisa mais importante que você aprendeu nas viagens até agora?

Vicente: Viver (e não apenas sobreviver), conquistar e compartilhar.

Você já pensava em escrever um livro? Como surgiu a ideia?

Vicente: Sempre gostei de escrever e senti que era o que mais queria fazer na vida, se possível, profissionalmente. O livro surgiu de forma bem clara ao longo da viagem, comigo vivendo bastante coisa boa e tendo convicção de que tinha que dividir isso com mais gente.

O que você fez para escrever? Usou o próprio dinheiro, teve patrocínio, apenas enviou para uma editora?

Vicente: Usei meu próprio tempo e dinheiro. Não tive patrocínio. O livro Mochileiro Aprendiz Aventureiro foi publicado inicialmente por mim, em 2006. Em 2014 foi publicado pela Amazon e pela Kobo, tanto em Português como em Inglês, passando a ser vendido em vários países.

E hoje, faria igual ou mudaria a estratégia para conseguir escrever um livro? Que dica dá a outros viajantes com essa pretensão?

Vicente: Hoje existem plataformas de publicação independente, como as da Amazon, da Kobo, da Saraiva e outras. Acredito serem atualmente os melhores caminhos, pois são rápidos e gratuitos. A maior dificuldade está em distribuir o livro físico.

Qual foi a melhor e a pior parte da viagem?

Vicente: A partir do nono mês longe de casa, passei a ganhar mais dinheiro e a ter mais tempo pra lazer e flexibilidade pra viajar. Foi quando começou a parte mais prazerosa. Antes disso, houve a parte de mais aprendizagem diante das dificuldades da vida.

Que conselho você daria para as pessoas que procuram fazer algo semelhante?

Vicente: Começar. Ler livros a respeito do que se quer fazer. Assistir a vídeos. Pesquisar sobre os lugares. Conversar com quem já fez algo parecido. Participar de grupos na internet. Aliás, foi pra isso que criei a página Pela Paz e também grupos no Facebook, como Viagens e Intercâmbios e Mochileiros Aprendizes Aventureiros.

Quer acrescentar algum pensamento?

Vicente: Mochilar é conhecer melhor a vida, o mundo, os outros e a si próprio. Viajar é uma das formas mais eficazes pra se melhorar o mundo, pois o viajante aprendiz retorna para o local de onde partiu com novas ideias e bastante energia. Pés e cabeça na estrada!

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Saiba mais sobre o livro Mochileiro Aprendiz Aventureiro, do Vicente Zancan

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